Por Maurivânia Aparecida de Farias, autora de A semente que não sabia que era flor: a história de Ella e o florescer de tantas mulheres invisíveis

Em algum momento da vida, muitas mulheres percebem que estão cansadas — mas não apenas fisicamente. É um cansaço que nasce da sensação de estarem sempre atendendo demandas: da casa, do trabalho, dos filhos, do casamento, da família, da comunidade.

Elas cumprem funções com excelência, são responsáveis, presentes, comprometidas. Mas, em meio a tantas tarefas, uma pergunta começa a ecoar silenciosamente: em que momento eu deixei de ser eu?

A autoanulação feminina não acontece de forma brusca. Ela é construída aos poucos, quase imperceptivelmente, enquanto a mulher aprende que precisa ser forte, disponível e suficiente para todos — menos para si mesma.

Desde muito cedo, meninas são ensinadas a cuidar. Cuidar da casa, dos irmãos, das emoções alheias. Aprendem que o valor está em servir, em ser necessárias, em não dar trabalho, serem “comportadas”. Quando adultas, carregam essa programação emocional. Tornam-se profissionais competentes, mães dedicadas, esposas parceiras. O problema não está no cuidado — ele é nobre e essencial. O problema surge quando cuidar dos outros significa abandonar a si mesma.

A autoanulação geralmente começa com pequenas concessões:

Em cada relação social estabelecido a mulher vai se adaptando abrindo mão de um pouquinho de si e assim vai se despersonificando num processo por vezes discreto, quase imperceptível. Com o tempo, essas pequenas renúncias se tornam padrão. A mulher passa a se definir apenas pelos papéis que exerce. Se perguntada sobre quem é, responde com funções: “sou mãe”, “sou professora”, “sou esposa”. Mas raramente fala de desejos, gostos, projetos pessoais. 

Do ponto de vista emocional, essa dinâmica gera consequências profundas. A ausência de espaço para si pode resultar em:

A identidade feminina, quando construída exclusivamente em função das demandas externas, torna-se frágil. E quanto mais a mulher se desconecta de si, mais difícil se torna exercer autoridade saudável, posicionamento claro e autonomia nas relações.

É importante compreender que muitas vezes essa autoanulação não é escolha consciente. É uma estratégia de sobrevivência emocional aprendida ao longo da vida. No entanto, o que foi mecanismo de adaptação pode, com o tempo, transformar-se em aprisionamento.

Reconhecer esse processo é o primeiro passo para interrompê-lo.

Resgatar a própria identidade não significa abandonar responsabilidades ou deixar de amar aqueles que fazem parte da sua vida. Significa incluir-se na própria lista de prioridades.

Uma mulher que se reconhece:

Quando a mulher se permite existir além das funções, fortalece não apenas a si mesma, mas todo o ambiente ao seu redor, além de redescobrir sua própria voz.

Autoanulação não é sinônimo de amor. Amor saudável inclui presença — inclusive a presença de si.

Se em algum momento a mulher perceber que não se reconhece mais, talvez não seja sinal de fracasso. Pode ser o convite para um reencontro.


Maurivânia Aparecida de Farias, é educadora e escritora, natural de Cristalina (GO) e residente em Pirenópolis (GO). Atua como professora concursada na educação infantil, com experiência na formação integral de crianças, especialmente no desenvolvimento socioemocional.

É bacharel em Administração, Pedagoga, pós-graduada em Docência Universitária, Gestão de Pessoas e Neurociência e Psicologia Positiva, Neurociência e Neuropedagogia na Educação e Psicopedagogia, áreas que fundamentam sua prática educativa e seu olhar para o desenvolvimento humano.

Autora da obra “A Semente Que Não Sabia Que Era Flor”, utiliza a escrita como instrumento de reflexão e transformação, abordando temas como identidade, maternidade, emoções e vivências femininas.

Mais recentemente, tem ampliado sua atuação em processos de mentoria feminina num processo de desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, contribuindo para que mulheres se reconectem consigo mesmas.

“Toda mulher carrega uma semente. Quando se reconhece, ela floresce.”

Respostas de 11

    1. É uma satisfação muito grande receber o seu feedback. Cada vez mais devemos voltar nosso olhar para as questões internas que afligem nós mulheres e que muitas vezes nem percebemos. Obrigada pela gentileza em deixar seu comentário.

  1. ​Li o artigo da Maurivânia Aparecida de Farias e gostaria de destacar a força da reflexão que ela propõe.
    ​O texto expõe com clareza a sobrecarga e a opressão invisível que muitas mulheres enfrentam ao tentar equilibrar as demandas da casa, do trabalho e da família. A Maurivânia descreve o processo de despersonificação, em que a mulher se perde de si mesma para atender às expectativas de ser sempre forte e disponível para todos.
    ​É uma análise necessária sobre como o ato de cuidar pode se transformar em um mecanismo de apagamento da própria identidade. O artigo acerta ao mostrar que esse silenciamento não é uma escolha, mas uma construção social que precisa ser interrompida para que a mulher recupere sua voz e seu espaço.
    ​Parabéns, Maurivânia, pela lucidez ao abordar um tema tão urgente

    1. Ter uma reflexão masculina sobre este tema que é um ponto de dor para muitas mulheres é riquíssimo. Muito obrigada pelo feedback. 🙏🤝

  2. “Toda mulher carrega uma semente. Quando se reconhece, ela floresce.” Se cure e lance suas sementes por onde passar.

    Algumas mulheres exigem tanto da esfera do agir que acaba anulando suas emoções.
    Todas as mulheres precisam existir emocionalmente em Deus.

    Parabéns Maurivânvia pelo seu lindo propósito.

  3. Como essa reflexão é necessária nos dias atuais, pois hoje encontramos mulheres adoecidas física e emocionalmente e um número enorme de feminicídio.
    Esse livro nos trás a importância de mulheres fazerem seus papéis e homens fazer os deles, mas com o cuidado e o amor que um relacionamento exige entre pais e filhos, marido e mulher e amizades .
    Parabéns Maurivania vc é uma poetisa, pois aborda um assunto tão profundo de forma leve

    1. Que possamos impulsionar grandes reflexões sobre este e vários outros assuntos relevantes ao universo feminino. Obrigada pelo seu feedback.

  4. Um artigo extremamente necessário, que traz a profunda reflexão de que todas nós deixamos pedaços de quem somos naquilo que exercemos. E como descobrimos que a anulação ocorre de forma sútil e silenciosa porém podemos sempre nos reencontrar e voltar ao eixo principal sem deixar que nossa essência se perca!

    1. Reconhecer o estágio em que se encontra neste processo de perda silenciosa de identidade, é sem dúvida apesar de complexo, um ponto importante do processo de resgate de si mesma. Pois na maioria das vezes este processo é imperceptível (por diversos motivos) e descobrir-se nesta posição é dolorido e desconfortável. Obrigada por participar, contribuindo com sua reflexão sobre o tema.

  5. Que texto profundo e necessário! Você descreve com muita sensibilidade uma realidade vivida por tantas mulheres que, na tentativa de cuidar de todos, acabam se esquecendo de si mesmas. A autoanulação, muitas vezes silenciosa, rouba sonhos, identidade e até a própria voz. Gostei especialmente da forma como você mostra que resgatar a essência não é deixar de amar ou de cuidar, mas compreender que o autocuidado também é um ato de amor. Que essa reflexão alcance muitas mulheres e desperte nelas a coragem de se reencontrarem. Parabéns por um texto tão rico, humano e transformador.

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