Por Talita Gantus-Oliveira, autor de Geociência Crítica: Feminismo, Antirracismo e Justiça Socioambiental
Quando um rio transborda ou uma encosta desliza, só se transforma em desastre se houver pessoas vulneráveis expostas ao risco. E essa vulnerabilidade não é igual para todos os grupos sociais: gênero, raça, classe e território influenciam diretamente nos impactos. Mulheres, sobretudo negras e periféricas, estão entre as mais afetadas, seja pelas perdas materiais, imateriais e impactos na saúde, seja pela sobrecarga emocional e de cuidados familiares no pós-desastre.
Estudos científicos demonstram que a população negra no Brasil está desproporcionalmente concentrada em áreas de risco de inundações e deslizamentos. Esse é um retrato claro do racismo ambiental, que se soma às desigualdades de gênero. Como consequência, desastres não apenas desorganizam territórios, mas também aprofundam injustiças sociais já existentes.
Às vésperas da COP30, que acontecerá em Belém, essas discussões ganham ainda mais relevância. Afinal, falar de adaptação climática e desastres socionaturais sem reconhecer os diferentes impactos sobre mulheres, negros, indígenas, quilombolas e populações LGBTQIA+ é ignorar a realidade concreta das comunidades mais afetadas pelas mudanças do clima. Reconhecer a interseccionalidade nos riscos e desastres é, portanto, essencial para construir soluções realmente justas e eficazes.
Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Geociência Crítica: Feminismo, Antirracismo e Justiça Socioambiental.
Talita Gantus de Oliveira é engenheira geóloga, mestra em Geologia Ambiental, doutora em Geociências e especialista em Jornalismo Científico. Trabalha com pesquisa e divulgação científica em temáticas como gestão de riscos e desastres; resiliência climática; planejamento territorial urbano; justiça socioambiental.
