Por João Lister Pereira, autor de O Espelho – A Investigação das Neuroses Sociais do Século XXI
Quando me deparo com o universo dos “Bebês Reborn” — aquelas bonecas hiper‑realistas cujos cuidadores recriam com exatidão cada aspecto de uma rotina maternal — sou imediatamente transportado para uma das principais teses de meu Livro recém lançado, pela Editora Appris, selo Artêra: O Espelho – A Investigação das neurores Sociais do Século XXI; pois estamos diante de um sintoma palpável da neurose social que permeia o século XXI. Aqui, o fascinante encontro entre o real e o artificial assume contornos tão díspares que nos força a questionar até que ponto a busca por perfeição plástica não mascara nossas próprias fragilidades.
No cerne dessa reflexão está a parábola do personagem, Salvo, relatada no capítulo “A Cidade do Espelho”. Salvo caminha em meio a superfícies reflexivas que, ao contrário de meramente refletirem sua imagem, drenam sua essência. Da mesma forma, o cuidador de um Reborn busca refugiar‑se num reflexo tão controlado que ignora, por completo, a imprevisibilidade da experiência humana.
Em vez de abraçar a complexidade de um vínculo genuíno, o adepto ao Reborn entrega-se a uma domesticação absoluta do outro, em que cada falha é anulada. Essa neurose da conformidade — que descrevo no esqueleto teórico baseado em Foucault — revela como o imperativo de autopreservação e adequação a padrões normativos nos leva a buscar abrigo em objetos perfeitamente modulados.
Não se trata de uma simples dedicação artística, mas de um ritual quase litúrgico: cada veia pintada, cada suspiro simulado e cada roupinha trocada fazem parte de uma coreografia que promete alívio, mas cristaliza um vazio. Ao meditar sobre a medicalização do cotidiano — tema central do capítulo 3 — demonstro que, ao converter angústias em rotinas de cuidado com um boneco, reforçamos uma neurose que exige cura instantânea, sem espaço para o desconforto inerente ao contato humano real.
Se, por um lado, o Reborn encarna a perfeição controlada, por outro ele é fruto da nossa hiperconectividade alienante. No capítulo sobre essa fragmentação digital, argumento que substituímos a troca emotiva por interações superficiais, alimentadas por números e métricas E mesmo a promessa de conforto no mundo virtual termina por expor uma fissura ainda mais profunda: a neurose da exposição, explorada no capítulo dedicado ao panoptismo digital. Aqui, não somos apenas vigiados; tornamo‑nos agentes ativos da própria visibilidade, transformando nosso cotidiano em espetáculo.
A visibilidade digital não é neutra. Ela é moldada por algoritmos que favorecem determinados comportamentos, incentivando a exibição contínua e a busca incessante por aprovação externa. Nesse contexto, o adepto do Reborn exibe seu cuidado como troféu, mas paga um preço: vincula seu valor social ao número de curtidas ou comentários, aprofundando uma ansiedade crônica de desempenho que é a face mais cruel da nossa era hipervisual.
Ao final, reconheço que muitos encontram nos ateliês e nas feiras de Reborn um sítio de pertencimento. Contudo, cabe perguntar: praticamos afeto verdadeiro quando trocamos a imprevisibilidade de um ser humano por um reflexo plástico perfeitamente ajustado? Meu apelo, então, é por uma resistência afetiva: que nos libertemos das prisões da perfeição, que reaprendamos a conviver com o imprevisível e que reencontremos o valor do contato humano que não pode — e não deve — ser domesticado.

Sobre o autor
João Lister Pereira é psicanalista, advogado, articulista em periódicos nacionais e autor de O Espelho – As Neuroses Sociais do Século XXI. Pesquisa os impactos psicológicos e socioculturais das transformações contemporâneas.