Este texto deriva do preprint em português “Fome Estrutural: A Mercantilização da Energia Humana e a Regulação do Trabalho Obrigatório” (Zenodo, DOI: 10.5281/zenodo.14421113) e é complementado pelo preprint em inglês “Structural Hunger: The Commodification of Human Energy and the Regulation of Compulsory Labor” (SSRN, DOI: 10.2139/ssrn.5368115).
O ponto central é simples e incômodo: a economia mundial opera sobre uma moeda real, a energia produzida e consumida dentro das células humanas (ATP). Quando essa energia é mercantilizada e o acesso à sua reposição é regulado por estruturas sociais (salário, tempo, mobilidade, moradia, alimentação, saúde, descanso), instala-se a fome estrutural: não por escassez natural de alimentos, mas por um déficit organizado entre energia gasta e energia devolvida ao corpo que trabalha.
1) Da célula ao sistema
Toda ação econômica começa na coordenação celular que transforma oxigênio e nutrientes em movimento — do plantio ao transporte, da venda ao cuidado. Essa energia invisível organiza a matéria inerte e mantém processos obrigatórios (produção, transporte, comércio e consumo). Sem ela, não há ciclo econômico.
2) Mercantilização da energia humana
A passagem histórica do pré-agrícola ao industrial estruturou a energia do corpo como insumo regulado, deslocando o benefício direto do trabalhador para arquiteturas de acumulação. O resultado é um trabalho biologicamente obrigatório: para existir socialmente, o indivíduo precisa vender a própria moeda bioenergética (seu ATP), mas compra de volta descanso, alimentação, saúde e tempo em condições frequentemente insuficientes.
3) O déficit de reposição (paridade energética)
Indicadores monetários (PIB, preços) não registram o custo humano da energia entregue. Quando políticas, empresas e instituições não garantem a paridade energética — isto é, a reposição efetiva do que o corpo gasta — surgem expressões da fome estrutural:
- Fome calórica e nutricional (comida suficiente e de qualidade);
- Fome de tempo (deslocamentos longos, múltiplos vínculos, jornadas extensas);
- Fome de descanso/sono (ambientes exaustivos, turnos, metas);
- Fome de saúde e cuidado (prevenção, tratamento, segurança no trabalho);
- Fome de convivência e futuro (educação contínua, mobilidade social).
4) O erro de leitura econômica
Ao tratar o trabalho apenas como “custo” e o salário como “preço”, ignoramos que o que se transaciona é energia vital. Dinheiro não move a matéria; o corpo move. A conta correta é biofísica: sem reposição adequada (alimento, tempo, sono, condições), o sistema consome o trabalhador a negativo, naturalizando precariedade, adoecimento e morte prematura.
5) Critério de dignidade: fechar o balanço energético
Reorientar políticas e gestão significa ancorar decisões no corpo:
- Salário e preços referenciados em reposição energética real;
- Alimentação adequada e acessível como infraestrutura, não benefício;
- Tempo protegido (deslocamento, jornada, descanso, sono);
- Ambientes não exaustivos e prevenção primária em saúde;
- Mobilidade e moradia que reduzam custo energético do viver;
- Educação e qualificação como devolução de futuro (energia potencial).
A fome estrutural é o nome social do déficit energético organizado. Enquanto a economia exigir mais energia do que devolve aos corpos que a movem, o sistema produzirá miséria mesmo em abundância material. Reconhecer o trabalho como transação de energia vital muda a régua: políticas passam a ser avaliadas por sua capacidade de restituir energia (alimentação, saúde, tempo, mobilidade, moradia, educação). Empresas e governos deixam de medir apenas dinheiro e passam a fechar a paridade entre energia entregue e dignidade devolvida.
Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “O Preço da Vida: seu trabalho, sua energia, o verdadeiro motor da economia mundial”.
Fontes
- Orquiza, J. C. Fome Estrutural: A Mercantilização da Energia Humana e a Regulação do Trabalho Obrigatório. Zenodo (preprint), 2025. DOI: 10.5281/zenodo.14421113 — https://doi.org/10.5281/zenodo.14421113
- Orquiza, J. C. Structural Hunger: The Commodification of Human Energy and the Regulation of Compulsory Labor. SSRN (preprint), 2025. DOI: 10.2139/ssrn.5368115 — https://doi.org/10.2139/ssrn.5368115
João Carlos Orquiza é bacharel em Psicologia pela Universidade Positivo (UP), pesquisador conceitual e teórico dedicado ao estudo das emoções conflitantes e de como a energia produzida pelo corpo humano sustenta a vida social e econômica. Autor do livro “O Preço da Vida: seu trabalho, sua energia, o verdadeiro motor da economia mundial” (Editora Appris, 2025), publicou artigos em periódicos internacionais nas áreas de psicologia organizacional, neurociência e teoria social, entre eles Self-Stress: A New Perspective on Stress and Moral Disorders of Civilization e The Essential Interconnection of the Reticular Formation, Intermediolateral Nucleus, and Hypothalamus-Pituitary-Adrenal Axis. Também contribuiu com o capítulo “The Diversion of Human Energy: How Work Has Become a Commodity in Modern Societies” em Current Progress in Arts and Social Studies Research Vol. 2. Sua pesquisa integra biologia celular, neuroendocrinologia e economia política para propor uma leitura biofísica do trabalho humano, com foco na paridade energética como critério de dignidade. ORCID: 0000-0001-9619-9939.