Por Ana Cecília de Lacerda Soares, autora de Negritude Visceral

Falar sobre identidade negra no Brasil costuma esbarrar em dois extremos: ou se reduz a números e estatísticas, ou se dilui em discursos genéricos sobre diversidade. No meio disso, existe uma dimensão pouco explorada — aquela que não cabe em gráficos nem em slogans. É a experiência vivida, sentida e, muitas vezes, silenciada. É nesse território que surge a ideia de uma negritude visceral: não como teoria, mas como corpo em movimento, memória ativa e percepção cotidiana.

A negritude, quando tratada apenas como categoria social, corre o risco de ser compreendida de forma superficial. Ela passa a ser algo que se “tem” ou “não se tem”, quando, na prática, ela é construída continuamente. Está na forma como alguém ocupa um espaço, no modo como é percebido antes mesmo de falar, nas escolhas estéticas que são julgadas ou validadas. Está também nas ausências — de referências, de pertencimento, de escuta.

Essa dimensão visceral aparece com força quando observamos o impacto da ancestralidade. Não se trata apenas de resgatar o passado, mas de entender como ele atravessa o presente. A herança cultural negra não é um adereço identitário; ela molda linguagem, valores, afetos e até estratégias de sobrevivência. Ignorar isso é manter uma leitura incompleta da sociedade brasileira.

Outro ponto central é a solidão — especialmente a solidão da mulher negra. Não apenas no sentido afetivo, mas existencial. Há uma sobrecarga histórica de força atribuída a essas mulheres, como se resistência fosse uma obrigação e não uma consequência. Isso cria um paradoxo: são vistas como indispensáveis, mas raramente como prioridade. A negritude visceral expõe essa contradição sem suavizar suas arestas.

Também é impossível falar desse tema sem tocar na estética como forma de resistência. Cabelo, corpo, roupa e linguagem deixam de ser apenas escolhas individuais e passam a ser afirmações políticas. O que para alguns é estilo, para outros é enfrentamento diário. A validação — ou rejeição — desses elementos revela muito sobre as estruturas ainda presentes na sociedade.

No fim, compreender a negritude de forma mais profunda exige deslocamento. Não basta reconhecer desigualdades; é preciso escutar narrativas, rever pressupostos e aceitar desconfortos. Porque o que está em jogo não é apenas inclusão, mas transformação de perspectiva.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Negritude Visceral.”


Ana Cecília de Lacerda Soares

Graduada em Administração de Empresas; MBA em Desenvolvimento Regional Sustentável, Pós em Psicologia Organizacional.Empregada Pública a 20 anos. 

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