Por Jéssica Carla Luciano, psicóloga infantil (CRP 04/63602), autora de E se…: Aprendendo a Lidar com as Frustrações
A torre de blocos que desmorona, o jogo que termina em derrota, o passeio que foi cancelado por causa da chuva. Para um adulto, são pequenos contratempos. Para uma criança, podem virar choro intenso, gritos e até objetos jogados no chão. Diante dessas cenas, muitos pais se perguntam se estão fazendo algo errado, e a tentação de resolver tudo rapidamente para acabar com o sofrimento é enorme.
A boa notícia é que sentir frustração faz parte do desenvolvimento saudável. O cérebro infantil ainda está amadurecendo as áreas responsáveis por controlar impulsos e regular emoções, um processo que continua até o início da vida adulta. Por isso, a criança não nasce sabendo esperar, perder ou ouvir um “não”. Ela aprende, e aprende principalmente com os adultos que estão ao seu lado.
Frustração não é inimiga
Nem toda frustração precisa ser evitada. Algumas precisam ser vividas para que a criança aprenda a lidar com aquilo que não pode mudar. Quando poupamos a criança de todo e qualquer desconforto, tiramos dela a oportunidade de treinar uma habilidade que vai usar a vida inteira. A tolerância à frustração se constrói aos poucos, em situações que a criança consegue suportar e com um adulto por perto para apoiar.
Às vezes, amar uma criança também é permitir que ela se frustre e estar por perto para ensiná-la a lidar com isso.
Algumas atitudes que ajudam no dia a dia
O primeiro passo é nomear a emoção. Frases como “Você ficou bravo porque a torre caiu” ajudam a criança a entender o que está sentindo. Validar o sentimento, porém, não significa concordar com o comportamento, e por isso também é importante manter o limite com calma.
Se o choro faz o “não” virar “sim”, a criança aprende que explodir funciona. É possível ser firme e acolhedor ao mesmo tempo.
Nos momentos de crise, o adulto pode emprestar a sua calma. A criança ainda não consegue se acalmar sozinha, e abaixar na altura dela, falar em tom baixo e respirar junto funciona muito melhor do que pedir calma aos gritos. Já as estratégias de autorregulação devem ser ensinadas fora da crise. Respirar enchendo a barriga como um balão, contar até dez ou ir para um cantinho tranquilo são recursos que precisam ser treinados em momentos de calma, para que a criança consiga usá-los quando a emoção aparecer.
Depois que tudo passar, vale conversar sobre o que aconteceu. Perguntas como “E se acontecer de novo, o que você pode fazer?” ajudam a criança a imaginar outros caminhos e a se sentir mais preparada para a próxima vez. Por fim, não podemos esquecer que o exemplo ensina. As crianças observam como os adultos reagem ao trânsito, a um erro ou a uma notícia ruim, e mostrar que você também se frustra e consegue lidar com isso é um ensinamento poderoso.
Quando procurar ajuda
Vale buscar a orientação de um profissional quando as crises são muito frequentes, duram muito tempo, envolvem agressão a si mesmo ou aos outros, ou começam a prejudicar a rotina na escola e em casa.
Conclusão
Ajudar a criança a lidar com a frustração não significa evitar que ela sofra, e sim caminhar ao lado dela enquanto aprende que é possível sentir raiva ou tristeza e, mesmo assim, encontrar uma saída. Às vezes, amar uma criança também é permitir que ela se frustre e estar por perto para ensiná-la a lidar com isso. Isso também é amor. Cada “não” acolhido com paciência é um passo na construção de um adulto mais seguro, flexível e capaz de enfrentar os desafios da vida.
Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “E se… aprendendo a lidar com as frustrações”.
Sobre a Autora – Jéssica Carla Luciano – Psicóloga · CRP 04/63602
Psicóloga especialista em desenvolvimento infantil e pós-graduada em Transtorno do Espectro Autista. Possui certificação em ESDM e PRT e atua há mais de oito anos com transtornos do neurodesenvolvimento. É fundadora da Clínica Encantar Desenvolvimento Infantil, em Belo Horizonte, onde também coordena a equipe de ABA. É autora do livro infantil “E se… aprendendo a lidar com as frustrações” e coautora das obras “Intervenção Multidisciplinar no TDAH” e “Autismo: Reflexões e Perspectivas, Volume 4”.
Instagram: @psicologiajessica
