Por Wagner Montanhini, autor de Entre mundos: minha jornada com o autismo em tempos tardios
Quando se fala em autismo, a primeira coisa que geralmente vem à mente para a maioria das pessoas é uma criança que não fala, que balança o corpo ou tem problemas de aprendizagem severos. Esse estereótipo, embora ele possa descrever uma parte do espectro do autismo, não reflete a realidade da maioria das pessoas autistas. Existem legiões de adultos que passaram toda a sua vida sentindo-se “diferente”, “antisocial” ou “demasiadamente exigente” sem ter ideia de que a maneira como eles interpretam o mundo tem um nome – autismo. E qual é a situação quando essas diferenças são invisíveis para os outros? Por que, nos últimos anos, há tantos homens e mulheres que estão fazendo um diagnóstico de autismo aos 40, 50, até mesmo aos 60 anos de idade?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) também é conhecido como “espectro” justamente devido à grande diversidade das suas formas manifestas. Enquanto alguns indivíduos exigem apoio intenso em muitos aspectos de suas vidas, outros formam famílias, trabalham e têm uma vida independente – contudo, sentem-se constantemente exauridos e percebem-se incapazes de se integrar. Este fenômeno de “invisibilidade” está ligado ao fato de os sinais de TEA de nível 1 de apoio (anteriormente denominado Síndrome de Asperger) serem discretos: hipersensibilidade aos sons e luzes, dificuldades na interpretação de ironias e faces, a necessidade de rotinas, hiperfoco nos interesses e exaustão social que conhecem apenas os afetados. Para todos os outros, parece-se mera timidez ou mau humor.
Por que esse diagnóstico só surge agora nos adultos? Em décadas de 1970, 1980 e 1990, o que se sabia sobre o autismo era relativo aos casos mais severos. Crianças que não atendiam ao comportamento previsto recebiam apelidos como “diferentes”, “desatentos” ou “problemas”, sendo que nem sempre chegavam a ser notadas. E, à medida que a ciência avança e o conceito de neurodiversidade ganha espaço, de acordo com o qual o cérebro autista seria apenas uma dessas variações naturais do funcionamento humano, muitos adultos passam a reexaminar suas trajetórias. Quando olham para trás, percebem com facilidade os sinais que estavam lá o tempo inteiro: a solidão nas pausas da recreação, o medo das festas agitadas, a leitura compulsiva de enciclopédias, a falta de entendimento dos gracejos, o esgotamento depois de um dia normal de trabalho.
O diagnóstico tardio não é uma maldição, mas uma benção. É como encontrar enfim a chave que abre o caminho para a casa em que se viveu confuso durante anos e anos. Permite que os erros na escola, nas relações e nas carreiras sejam reinterpretados. Mas o desafio do mundo atual não está no diagnóstico pessoal: o mundo ainda não está preparado para aceitar as diferenças invisíveis. Ambientes de trabalho cheios de ruído, escolas que não compreendem as diferentes formas de aprender, culturas que exigem interação social constante são cada dia maiores obstáculos. A necessidade de informação sobre a existência da invisibilidade do autismo torna-se uma questão vital.
A invisibilidade do autismo em adultos tardios é um apelo à empatia. Quantas pessoas ao nosso redor estão vencendo esta condição sem sequer terem conhecimento dela? Quantas pessoas estão sofrendo sozinhas pelo fato de se sentirem diferentes e, portanto, inadequadas? A primeira coisa que devemos fazer é olhar para os outros de uma forma mais curiosa e menos crítica, entendendo que a complexidade da vida humana não pode ser reduzida a meras etiquetas. A segunda coisa é cada pessoa olhar para si mesma com a mesma abertura – pois é sempre tempo de descobrir, acolher e, por fim, existir de forma leve.
Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “Entre Mundos: minha jornada com o autismo em tempos tardios”.
Wagner Montanhini é doutor em Educação e professor universitário. Desenvolve projetos nas áreas de saúde, cultura, espiritualidade e humanidades, com foco no desenvolvimento humano e na escuta sensível da existência. Autor de “Entre Mundos: minha jornada com o autismo em tempos tardios”, combina linguagem poética e reflexão crítica para abordar temas como autoconhecimento, inclusão, espiritualidade e cura interior.
