Por Júlia Becker, autora de Tudo Fora do Lugar
O muro da casa onde cresci fazia fronteira com um terreno vazio. Hoje, vejo apenas um conjunto de tijolos e um gramado. Mas aquele lugar já foi muito mais: corda bamba de circo com leões no picadeiro, prancha de navio pirata sobre um mar de tubarões, e até palco onde eu era a estrela principal.
A infância é um tempo em que tudo ainda é mistério e possibilidades. Mas, pouco a pouco, o encantamento vai se dissolvendo e dando lugar à lógica e ao costume. Os “por quês?” já não são tão importantes; catalogamos o mundo ao nosso redor e o colocamos em caixinhas que raramente mudam de lugar. A magia acaba dando lugar à racionalidade. Mas como podemos reverter isso?
Esquecemos, muitas vezes, como é corajoso ser criança. Como adultos, vivemos em um mundo conhecido, onde já descobrimos as respostas básicas. Já as crianças enfrentam um mundo novo todos os dias, sem fórmulas prontas, sem os filtros limitantes da lógica adulta, sem medo de imaginar. Enxergar o mundo com esse olhar é, acima de tudo, um privilégio.
Nos surpreendemos com as perguntas que as crianças fazem, achando-as incrivelmente espertas, quando a grande chave é que elas não se limitam. Nos surpreendem ao fazer conexões escancaradas que, na teimosia da comodidade, nos recusamos a enxergar. Muitos de nós acreditamos não ser criativos, mas talvez só tenhamos enterrado fundo demais nossa capacidade de brincar com o óbvio.
Crianças não têm vergonha de serem curiosas, de não saber, e de inventar novas respostas. Elas nos lembram que imaginar é um ato de resistência, de liberdade e de inteligência emocional. Elas extrapolam suas caixas e, muitas vezes, é justamente nessa bagunça que está o segredo para ir além.
Para um ordinário mais extraordinário, não basta apenas incentivar a criatividade nas crianças e tentar não as podar, mas também reviver o olhar infantil que habita em nós, adultos. Esse olhar que nos permite transformar o banal em fantástico, o simples em misterioso. O mundo não é só o que está diante dos nossos olhos, mas também aquilo que escolhemos inventar sobre ele.
Esse olhar extraordinário e imaginativo sobre situações cotidianas, está presente no livro “Tudo fora do lugar.”

Sobre a autora
Júlia Becker é ilustradora de alma e arquiteta de formação. Nascida no sul de Santa Catarina, foi acolhida pelos manezinhos da ilha há 12 anos. Apaixonada por contar histórias por meio da imagem, atua principalmente no universo infanto-juvenil. Utilizando técnicas variadas, busca criar universos e personagens que transbordem as páginas e se conectem de forma sensível com o leitor.
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