Por Isadora Morato, autora de Tudo o que transborda: do que é feito o sentir? Vivências de uma mulher/terapeuta em travessia

Vivemos em uma época em que nunca se falou tanto sobre saúde mental. Ansiedade, trauma, crise, gatilho, depressão: palavras que antes circulavam apenas nos consultórios hoje fazem parte das conversas cotidianas e das redes sociais. E isso, sem dúvida, tem um lado importante: estamos falando mais sobre sofrimento, vulnerabilidade e cuidado emocional.

Mas existe também uma questão que merece atenção: será que estamos realmente nos aproximando das nossas emoções ou apenas aprendendo novos nomes para nos afastarmos delas?

Tenho observado, como psicóloga, o quanto muitas pessoas passaram a diagnosticar o que sentem antes mesmo de tentar compreender a própria experiência. Qualquer tristeza vira depressão. Todo desconforto vira ansiedade. Qualquer relação difícil vira tóxica. E, aos poucos, vamos transformando experiências humanas em rótulos rápidos, como se nomear resolvesse automaticamente aquilo que sentimos.

Mas sentir tristeza diante de uma perda não significa estar deprimido. Sentir medo diante de uma mudança não significa ter um transtorno de ansiedade. Sentir angústia diante das incertezas da vida não é, necessariamente, adoecimento.

Às vezes, é apenas a vida acontecendo.

Talvez uma das maiores dificuldades da atualidade seja justamente suportar sentir sem precisar imediatamente controlar, explicar ou eliminar aquilo que nos atravessa. Vivemos tentando fugir do desconforto emocional, como se existir devesse ser sempre leve, produtivo e estável. Só que emoções não são defeitos do organismo. Elas são sinais.

O medo nos protege.

A tristeza nos convida ao recolhimento.

A raiva aponta limites.

A angústia revela conflitos.

A frustração nos confronta com a realidade.

Quando ignoramos ou patologizamos tudo o que sentimos, deixamos de escutar o que nossas emoções estão tentando comunicar.

Isso não significa romantizar o sofrimento ou negar a importância dos diagnósticos e dos tratamentos psicológicos e psiquiátricos, que são fundamentais em muitos casos. O problema começa quando perdemos a capacidade de diferenciar sofrimento humano de psicopatologia. Nem toda dor é doença. E talvez esse seja um lembrete importante para o nosso tempo.

Existe uma diferença entre sentir e adoecer.

A vida é atravessada por frustrações, despedidas, inseguranças, dúvidas e perdas. Faz parte da experiência humana entrar em contato com emoções difíceis. O sofrimento não é necessariamente um erro a ser corrigido, mas muitas vezes um movimento legítimo diante do que estamos vivendo.

Por isso, o caminho não é silenciar as emoções, mas aprender a escutá-las com mais honestidade.

Porque quanto mais fugimos do que sentimos, mais aquilo que evitamos cresce dentro de nós.

E amadurecer emocionalmente tem menos a ver com “controlar sentimentos” e mais com desenvolver coragem para habitá-los sem fugir imediatamente deles.

No fim das contas, sentir continua sendo uma das experiências mais humanas que existem.

A pergunta mais importante não é “como faço para parar de sentir isso?”, mas:

“o que essa emoção está tentando me mostrar sobre mim, sobre minha vida e sobre a forma como tenho existido no mundo?”

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “Tudo o que transborda: do que é feito o sentir?“, de Isadora Morato.  


Isadora Morato é psicóloga clínica, formadora e supervisora na abordagem da Gestalt-terapia. Atua com psicoterapia on-line, grupos de estudos, cursos e supervisão clínica. É fundadora do Transborda, espaço de formação e reflexão sobre saúde mental, relações humanas e existência. Autora do livro “Tudo o que transborda: do que é feito o sentir?”, dedica-se à escrita de temas relacionados às emoções, vínculos afetivos e experiências humanas.

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