Por Giancarlo Carvalho, autor de Crônica noir, morte no alecrim

Crônica ou romance: qual é mais fácil de escrever? Nem uma nem outro, digo, com sinceridade. Escrever bem exige uma boa premissa e entrega, seja lá quantas forem as palavras, frases ou parágrafos. A resposta depende menos do tamanho do texto do que do tipo de dificuldade que cada gênero (e sua premissa) impõe.

A crônica e sua concisão pedem olhar atento e sensibilidade para elevar o cotidiano ao patamar literário. Para manter suas dezenas ou centenas de páginas, o romance cobra fôlego e mais: personagens bons e complexos, continuidade, ritmo e coerência. A crônica pode até ser escrita numa tarde, mas isso não significa que seja fácil. O romance pode levar anos para nascer, o que não o torna, por si só, uma obra superior.

Cronista e romancista, é certo, não exercem ofícios incompatíveis. Muitos grandes escritores transitaram entre os dois gêneros, levando de um para o outro sua maneira particular de observar o mundo.

Machado de Assis foi cronista antes e durante sua trajetória como romancista — um “extraterrestre da escrita”, como disse um amigo. Nas crônicas, sua ironia, o diálogo com o leitor e o olhar desconfiado sobre os costumes sociais se tornariam marcas em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Clarice Lispector, outra grande, tinha tanto nas crônicas quanto nos romances a mesma inquietação diante das pequenas grandes coisas. O inquieto Caio Fernando Abreu levou para seus livros a angústia existencial, o lirismo cru e o olhar sensível sobre os afetos presentes nos seus textos curtos. Dos contemporâneos, Milton Hatoum, com suas lembranças e o olhar melancólico sobre família e pertencimento; Cidinha da Silva, uma forte, que cruza crônica, ensaio e ficção para tratar de identidade negra e da cultura; Socorro Acioli, que reproduz em A cabeça do santo a mesma oralidade e o imaginário popular que atravessa sua escrita cotidiana. E por aí vai…

Daria para escrever páginas e páginas sobre isso, mas convém manter este texto no tamanho de crônica que lhe cabe. Talvez esteja justamente aí resposta: cada qual no seu espaço, na hora certa. A crônica, para quem quer arriscar um romance, ensina a observar, cortar mesmo que a contragosto e ver que uma boa história pode nascer das coisas mais simples. O texto longo, para pretendentes a cronista, ajuda a sustentar uma ideia e a enxergar melhor personagens e seus conflitos. O romance amplia um mundo. A crônica nos ensina a enxergá-lo. Antes de tudo, porém, é preciso ter o que dizer.


Giancarlo Carvalho, mineiro em Porto Alegre-RS, ex-empresário e escritor. Autor de vários textos publicados em coletâneas de crônicas e também autor do romance “Crônica Noir, Morte no Alecrim”, publicado em 2026 pela Editora Appris sob o selo Artêra.

Respostas de 10

  1. Grande Gian!
    É certo que as escritas são diferentes. O escritor que quiser se arriscar em cada forma tem que saber que vai trabalhar com afinco e dedicação para que o seu produto/filho texto seja o melhor que puder fazer.
    E continuamos escrevendo!

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